Por: Izaías Almada no blog da Boitempo.
*Esclarecimento: O incêndio no Reichstag
(o Parlamento alemão) na cidade de Berlim no dia 27 de fevereiro de 1933 foi
forjado pelos nazistas que, culpando os comunistas, ascenderam no poder com Hitler.
Escrevo ao som de
panelas e gritos de crianças (coitadinhas) de “Fora PT”. O som, desagradável,
incomoda mais pela ignorância, pela intolerância e pela tristeza de ver a que
ponto pode chegar a manipulação de consciências.
Entorpecido pela
campanha sórdida de uma imprensa que não pensa no país, mas tão somente em seus
próprios interesses comerciais e corporativos, defendendo seu ultrapassado
conceito de neoliberalismo como fruto de um pensamento e uma postura
autocrática, para usar uma linguagem civilizada, e tendo ainda a seu favor a
ajuda vergonhosa de juízes de direito que estão mais para capitães do mato e
chefes de jagunços, o Brasil vem sendo aos poucos empurrado para a vala comum
da idiotia, da intolerância, do preconceito e do ódio, se já não bastasse o
baixo índice de politização de grande parte de sua sociedade.
Não é por acaso que o
imortal que ninguém leu deita falação pelos jornais “convocando” o país a
repudiar o ex-presidente Lula. Logo ele que abriu as comportas da Petrobrás
para as grandes jogadas sem licitação e que, por pouco, não vende a empresa a
preço de banana no mercado das almas. Ele que comprou a sua reeleição e que
chegou com os apaniguados ao limite da irresponsabilidade. Ele e outros
liderados de seu partido que outra coisa não fazem, após as eleições do ano
passado, senão procurarem chifres em cabeças de cavalo. Hipocrisia em altíssimo
grau.
Triste não é só ver
tamanha hipocrisia, mas também o destempero ou a falta de competência para o
cargo que ocupam ou ocuparam homens como Sérgio Moro, Gilmar Mendes e Joaquim
Barbosa, a docilidade e a crença de muitos brasileiros, ingenua até certo
ponto, na expectativa de que esses homens e boa parte do poder judiciário
brasileiro estejam preocupados em julgar com isenção, imparcialidade e fazer
minimamente aquilo que nós pobres mortais aprendemos a considerar como justiça.
Com a ajuda da
imprensa, cidadãos são julgados sem culpa formada. Com a ajuda da imprensa, ela
mesma envolvida em grandes atos de corrupção ao longo de nossa história, outros
cidadãos com graves culpas no cartório são mantidos acima de qualquer suspeita,
muito embora não consigam explicar suas contas em paraísos fiscais.
Triste é perceber que o
país votou nas últimas eleições (estamos falando do décimo quarto ano do século
XXI) para a composição de um poder legislativo conservador e tacanho, cujas
principais bancadas no Congresso Nacional estão ali apenas para defender
interesses próprios ou de grupos e empresas que contribuem honesta e patrioticamente
para a campanha dos eleitos, esses também em sua maioria sem qualquer
compromisso com a nação brasileira.
Triste é perceber que a
palavra “corrupção” perdeu todo e qualquer significado no Brasil contemporaneo,
uma vez que é usada e banalizada por um conjunto de cidadãs ou cidadãos das
mais variadas profissões, credos religiosos, partidos políticos, apenas para
tentarem desclassificar adversários políticos, já que ela é praticada em maior
ou menor escala no país há dezenas de anos desde a compra de falsas
certeirinhas de estudante ou do guarda de transito na esquina, até depósitos de
milhões de dólares em paraísos fiscais, seja na conta de um diretor de empresa
estatal ou em sonegação de impostos.
Um país de dimensões
continentais como o nosso e de imensa riqueza seja ela natural ou aquela
construída pelas mãos de milhões de trabalhadores com o passar dos séculos, até
agora, repito, início do século XXI, ainda não conseguiu se libertar do
espírito predador de nossos descobridores e colonizadores e muito menos do
selvagem uso da chibata e do vil garrote, eterno garante das leis no Brasil. E
garante também de uma cultura de submissão.
E assim, aculturados
que somos, vivemos, sobretudo nossas chamadas elites, seja lá o significado que
isso tenha, entre ditaduras explícitas e
simulacros de democracia, num jogo de faz de conta vergonhoso, onde a luta de
classes é varrida para debaixo do mesmo tapete onde há dezenas de anos
apodrecem algumas das maiores maracutaias econômicas, políticas e sociais.
E são exatamente os
responsáveis diretos por tais maracutaias que hoje incentivam as ruas
desmemoriadas a pedir intervenção militar para “moralizar” o Brasil e acabarem
com a corrupção, mas de um único partido, numa demonstração acachapante de
ignorância histórica, pobreza cultural, má fé e oportunismo político. O recente
exemplo da senadora Marta Suplicy com sua ressentida defecção diz muito sobre a
matéria e a tal elite. Shakespeare já tratou do assunto com grande
sensibilidade há quase quinhentos anos.
O recente e selvagem
espetáculo dado por um governador ignorante, no estado do Paraná, amparado ou
mesmo incentivador – talvez – dos desmandos e armadilhas judiciárias e
policialescas que ali surpreendem o país no dia a dia, fazem vir à tona o que
de mais retrógrado e covarde pode produzir os que nada têm a oferecer à
sociedade brasileira senão a cantilena sobre a corrupção alheia, quando a sua
escondem nas páginas dos jornais e ficções televisivas, acobertadas que são
pelas mentiras, pelas intrigas e, se necessário, por cassetetes, jatos d’água e
balas (por enquanto) de borracha.
Em Curitiba surgiu e se
consagrou de fato o símbolo da direita brasileira, o pitbull, sucessor do
pastor alemão dos anos 30 em Berlim. As fotos e vídeos que o novo e principal
partido da direita tentou esconder do país, o silêncio de seus principais
dirigentes ou, o que é pior, o apoio implícito de alguns deles às cenas de
selvageria contra professores estaduais, coloca em alerta o Brasil, fazendo
renascer na América do Sul as sinistras imagens de alguns mortos vivos.
Afinal quando irão
botar fogo no Reichstag e colocar a culpa no Partido dos Trabalhadores? Nos
negros, nos nordestinos, nos judeus? Estamos quase lá.
Comentários